QUANDO A CRÍTICA DAS MULHERES É TRATADA COMO AGRESSÃO: O EPISÓDIO FRANCISCO BOSCO
- Mariana Tripode

- 14 de dez. de 2025
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Quando a crítica feminina é lida como agressão: notas sobre racionalidade masculina e poder discursivo
Por Mariana Tripode
Advogada. Fundadora da Escola Brasileira de Direitos das Mulheres (EBDM)
A controvérsia recente envolvendo Francisco Bosco não é relevante por sua dimensão pessoal nem pela identidade do sujeito envolvido, mas pelo que revela acerca das formas contemporâneas de exercício do poder discursivo. O episódio expõe, mais uma vez, a dificuldade estrutural de homens que ocupam posições de legitimidade intelectual em lidar com a interpelação crítica feita por mulheres, especialmente quando essa interpelação rompe com o pacto implícito da cordialidade e da deferência.
O deslocamento que se observa é recorrente pois diante de uma crítica formulada por uma mulher, o debate deixa de incidir sobre o conteúdo do argumento e passa a se concentrar no modo como a crítica foi expressa.
O que está em jogo já não é a ideia, mas o comportamento da interlocutora. O tom substitui o conteúdo. A reação substitui a escuta. Não se trata de um mal-entendido pontual, mas de uma assimetria estrutural de reconhecimento, profundamente enraizada nas formas masculinas de organização do espaço público.
Nesse contexto, a afirmação de que haveria uma “confusão entre a crítica ao machismo e a crítica aos homens” opera como um expediente clássico de neutralização política. Quando individualiza um fenômeno estrutural, essa formulação esvazia a dimensão histórica e sistêmica do machismo e o reconduz ao plano da subjetividade ofendida. O efeito não é conceitual, mas estratégico para reposicionar homens como vítimas simbólicas de um suposto excesso discursivo e desloca o foco da crítica das estruturas de poder para o desconforto masculino diante de sua contestação.
Machismo não se reduz a comportamentos isolados, tampouco a intenções individuais. Trata-se de uma matriz histórica de produção de hierarquias, que organiza não apenas relações materiais, mas também regimes de linguagem, autoridade e legitimidade discursiva. Questionar o machismo não equivale a atacar sujeitos, mas a confrontar privilégios naturalizados. Quando essa distinção é mobilizada de forma defensiva, o que se revela não é zelo analítico, mas resistência à perda de centralidade simbólica.
O aspecto mais elucidativo do episódio está na escolha do vocabulário utilizado para enquadrar a mulher que critica. Termos como “agressiva” ou “incapaz de argumentar” não são descrições neutras, mas categorias historicamente associadas à desqualificação da fala feminina.
Mulheres que rompem o lugar da conciliação e da moderação são frequentemente interpretadas como excessivas, emocionais ou desproporcionais. Homens que adotam posturas equivalentes, por sua vez, são lidos como firmes, racionais e intelectualmente engajados. Esse duplo padrão não apenas deslegitima a crítica das mulheres, como funciona como mecanismo de controle simbólico do debate público.
Há, ainda, um equívoco recorrente entre homens que se identificam como progressistas e a suposição de que capital intelectual, circulação em espaços críticos ou alinhamento a determinadas pautas sociais os tornaria imunes à reprodução de violências de gênero. Não torna. Ao contrário, quanto maior o alcance da fala e maior o reconhecimento social de quem a emite, mais elevado é o dever de autorreflexão e responsabilidade ética. Capital intelectual não opera como salvo-conduto; amplia a obrigação de escuta, sobretudo quando a interpelação parte de quem historicamente foi excluído dos espaços de produção de sentido.
O recurso à narrativa do “delito de opinião” aprofunda esse deslocamento. Quando tenta enquadrar a crítica pública como tentativa de censura ou criminalização da fala, abandona-se o campo da responsabilidade discursiva e adentra-se a retórica da perseguição. Trata-se de uma estratégia conhecida, amplamente utilizada em ambientes acadêmicos, institucionais e corporativos, que consiste em transformar accountability em silenciamento e crítica em ataque. Não está em jogo a liberdade de expressão, mas o reconhecimento de que toda fala pública produz efeitos sociais e simbólicos, e que esses efeitos são passíveis de contestação. Responsabilização não é punição; é condição mínima de maturidade democrática.
O episódio, assim, evidencia que o debate público brasileiro ainda opera sob parâmetros masculinos de racionalidade, nos quais a crítica feminina é tolerada apenas enquanto não desestabiliza a autopercepção progressista daqueles que ocupam o centro da cena. O problema nunca foi o tom. Feminismo não é um problema de linguagem excessiva, mas de estrutura. Enquanto a crítica das mulheres continuar sendo lida como agressão, e não como produção legítima de conhecimento político, seguiremos reproduzindo hierarquias antigas sob discursos aparentemente renovados.
A crítica aqui não se dirige a indivíduos, mas a práticas reiteradas. Não se trata de cancelar pessoas, mas de nomear mecanismos que organizam o debate público de forma desigual.
O avanço democrático não exige consenso, mas exige disposição para revisar posições, reconhecer assimetrias e sustentar a escuta mesmo quando ela desestabiliza imagens confortáveis de si. Quem ocupa espaço público precisa estar preparado para ouvir o que não confirma sua própria narrativa de virtude. Esse é um requisito ético elementar em uma democracia que se pretende substantiva.




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