Independência do Brasil: uma trama de mulheres que a história tentou calar
- Mariana Tripode

- 7 de set. de 2025
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Por: Mariana Tripode
A Independência do Brasil não pode mais ser narrada como o gesto solitário de um príncipe às margens de um riacho. Essa imagem cristalizada apaga o movimento coletivo que deu forma à emancipação política do país e, sobretudo, silencia as mulheres que foram protagonistas nesse processo. Resgatar seus nomes e suas ações é recontar a história de modo mais justo e completo, é devolver às brasileiras o lugar que sempre ocuparam na luta pela liberdade.
No coração do Rio de Janeiro, em setembro de 1822, Maria Leopoldina, então regente, convocou e presidiu o Conselho de Estado, assinando a decisão formal de ruptura com Portugal. Seu gesto, mais do que simbólico, foi jurídico e político, pois pavimentou o caminho para o ato proclamado por D. Pedro dias depois. Ao contrário da imagem de uma princesa passiva, Leopoldina exerceu liderança de Estado.
No front de batalha, a Bahia ardia em resistência. Maria Quitéria de Jesus, transgressora e corajosa, vestiu-se de homem para ingressar nas tropas patriotas. Lutou com disciplina e bravura, recebendo ao final da guerra a Ordem Imperial do Cruzeiro e, mais tarde, o título de Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército. Sua história mostra como as mulheres não apenas apoiaram, mas também combateram pela independência.
A religiosidade também se transformou em trincheira. Em fevereiro de 1822, em Salvador, Sóror Joana Angélica morreu tentando impedir a invasão de tropas portuguesas no Convento da Lapa. Seu corpo tombou, mas sua morte ergueu a memória coletiva da resistência baiana.
Nas águas da Ilha de Itaparica, outra estratégia se desenrolava. Maria Felipa de Oliveira, mulher negra, marisqueira e liderança popular, organizou ataques contra os portugueses, chegando a incendiar embarcações inimigas. Durante muito tempo, sua trajetória foi invisibilizada. Hoje, seu nome integra o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, em reconhecimento tardio, mas fundamental.
Antes mesmo de 1822, mulheres já arriscavam tudo pelo ideal de liberdade. No Nordeste, Bárbara de Alencar participou ativamente da Revolução Pernambucana de 1817, sendo uma das primeiras presas políticas do país. Em Minas, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo articulou e financiou a Inconfidência Mineira, papel decisivo que a história oficial reduziu ao silêncio até muito recentemente. Ambas são hoje reconhecidas como Heroínas da Pátria.
Um século após a Independência, em 1922, a pintora Georgina de Albuquerque subverteu a narrativa ao criar o quadro Sessão do Conselho de Estado. Ali, colocou Leopoldina no centro da cena, governando, assinando, decidindo. A arte, nesse gesto, se tornou política da memória.
No campo da escrita, a cronista britânica Maria Graham testemunhou o processo em primeira mão. Seus diários oferecem um registro valioso, revelando o Brasil em nascimento sob a lente de uma mulher atenta às tensões sociais, culturais e políticas do período.
E, já no pós-Independência, coube à educadora e escritora Nísia Floresta consolidar a voz feminina na vida pública. Em 1832, publicou Direitos das mulheres e injustiça dos homens, obra pioneira no país e fundamental para afirmar a presença das mulheres no debate político.
A Independência do Brasil, portanto, não é a narrativa de um só personagem. É uma trama de mulheres: da regente estrategista à soldado baiana; da freira mártir à marisqueira comandante; das revolucionárias e inconfidentes à artista que repintou a História; da cronista que testemunhou ao vivo à educadora que semeou futuro.
Quando contamos assim, o 7 de Setembro deixa de ser um quadro congelado e volta a ser o que sempre foi: um movimento coletivo, onde as mulheres nunca estiveram ausentes, apenas foram silenciadas. Hoje, falamos seus nomes em voz alta e devolvemos a elas o lugar que sempre lhes pertenceu: o de protagonistas da história do Brasil.




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